O Comitê de Acompanhamento da Política de Cotas da UFSB irá julgar o caso do estudante nesta terça-feira (13). A denúncia anônima foi feita entre os anos de 2017 e 2018.

Um estudante de medicina de Capelinha (MG) luta para provar que não burlou as regras para entrar na Universidade Federal do Sul da Bahia, por meio da lei de cotas. Gildásio Warley dos Santos tem vitiligo e a descoloração da pele fez com que ele fosse denunciado à direção da universidade.

O vitiligo é uma condição genética que causa manchas na pele. A falta de pigmentação pode evoluir a ponto de afetar 100% do corpo. É uma doença que não tem cura e não é contagiosa. Gildásio descobriu cedo que as diferenças meramente visuais e a falta de informação podem causar dores que nunca saram.

“No meu caso, vitiligo teve início na região do joelho, do cotovelo e também do dedo, e o vitiligo trouxe ao longo de minha vida umas limitações, como a exposição ao sol, entre outras. Mas trouxe, principalmente, a exclusão, o julgamento e muitos preconceitos”, disse.

“Imagina você uma criança de seis anos, escutar da mãe de um colega que ele não pode se aproximar de você, para que não fique manchado igual a você. Imagina você na escola ser sempre chamado por apelidos como vaca pintada, como dálmata, entre outros”, lamentou.

Gildásio é de Capelinha, no Vale do Jequitinhonha, a 433 km de Belo Horizonte. Ele tem vitiligo desde a infância. Gildásio cursa medicina na Universidade Federal do Sul da Bahia e a vaga dele foi garantida pela lei de cotas. Sancionada em 2012, ela permite o ingresso no ensino superior para estudantes de baixa renda e que se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas. Só que, agora, a UFSB está questionando a legitimidade do direito de Gildásio.

“Novamente eu sou julgado por ter vitiligo, novamente eu venho sofrendo preconceito, exclusões, por uma questão que é patológica. O vitiligo não é escolha. A UFSB conhece a minha trajetória, a minha dedicação como estudante, conhece o meu sofrimento também desde que isso tudo começou. Porém, ela não oferece nenhum tipo de apoio, nunca tive um apoio psicológico, nunca tive um apoio de assistência social depois que isso tudo começou”, explicou Gildásio.

A denúncia anônima contra Gildásio foi feita entre os anos de 2017 e 2018, quando a universidade ainda não possuía o comitê que acompanha a política de cotas. A denúncia só foi admitida no fim de 2020. Na época, bastava a autodeclaração para ingressar na instituição pela lei de cotas.

“A nossa decisão não vai em conta só a questão visual do momento que é majoritariamente importante, sim. Ou seja, é importante, porque o que faz uma pessoa ser considerada heteroidentificadamente negra no Brasil, não é ter parentesco, não é, enfim, um histórico familiar”, explicou o professor e presidente do Comitê de Acompanhamento da Política de Cotas da UFSB, Gabriel Nascimento dos Santos.

Segundo a universidade, Gildásio tem o direito de apresentar todas as provas que julgar necessárias para a defesa dele.

“O denunciado, ele, obviamente, vai por apresentar quaisquer documentos e coisas que achar pertinente para a sua defesa. No caso do denunciado, essas questões vão ser consideradas, sim, porque se trata de uma denúncia. A gente analisa a denúncia em sua completude e a gente ouve a defesa em sua completude. A gente só toma a decisão depois de averiguados todos os aspectos, inclusive, os aspectos que são pregressos, no caso do denunciado. Então, esses traços, se o denunciado apresentar no ponto de vista do processo, ele vai ter isso analisado. Caso ele não apresente, vai ser muito difícil a comissão realmente identificar ou analisar para além dos traços visuais”, concluiu o professor.

A comissão que julga o caso de Gildásio irá se reunir nesta terça-feira (13) para dar um parecer. Ele pode recorrer da decisão em um prazo de 60 dias. Caso a admissão dele seja anulada, ele perde a vaga imediatamente. Enquanto correm os prazos para recurso, ele não poderá continuar cursando medicina na UFSB.

Fonte: Portal de Notícias G1

Foto: Gildásio Warley/Arquivo Pessoal

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